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13 de maio de 2009

Rodas de conversa ajudam pacientes a conviver com a hanseníase



Em pleno século XXI, o preconceito e a desinformação sobre hanseníase ainda prejudica o diagnóstico e tratamento da doença, que tem cura. Um grupo de pacientes e ex-pacientes que sentiram na pele a rejeição, participaram, na manhã desta quarta-feira (13), de uma roda de conversa, com profissionais de saúde, no Hospital Clementino Fraga. Eles lutam para conscientizar e alertar as pessoas do seu convívio sobre a doença. As rodas de conversas são realizadas, mensalmente, pela Secretaria de Estado da Saúde (SES). De acordo com a Gerência de Respostas Rápidas da SES, este ano já foram notificados 216 casos de hanseníase, na Paraíba.

Nesses encontros mensais, as pessoas falam da doença, dos problemas enfrentados e aprendem a conviver com as limitações físicas impostas pela enfermidade. O funcionário público federal, Antônio Veloso, 59 anos, que mora em Itabaiana, contou que as pessoas viam as manchas no seu corpo, perguntavam o que o que era aquilo. “Quando respondia que estava com hanseníase, as pessoas se benziam e saíam de perto. Logo no início, eu me sentia triste com a reação das pessoas, mas depois fui aprendendo a conviver com isso”, lembrou.

Ele destacou que a ajuda dos familiares foi de grande importância para que ele pudesse enfrentar a doença, que descobriu há seis anos. Ele disse que começaram aparecer manchas vermelhas e brancas pelo seu corpo e ele não sentia nada nesses locais. O funcionário público procurou um médico e foi encaminhado a um dermatologista que diagnosticou a hanseníase.

A partir desse momento, Antônio contou que iniciou o tratamento no Hospital Clementino Fraga e depois de dois anos foi curado da doença, mas a hanseníase deixou sequelas. A doença atacou os nervos do seu pé esquerdo, o que se chama de “pé caído”, e ele anda com ajuda de uma órtese. “Mas vivo a minha normal e hoje faço parte desse grupo de autoajuda, com outros pacientes que ainda sofrem dessa doença e com outros que estão curados”, disse.

Rejeição – Outro paciente que também sofreu na pele a rejeição da sociedade foi o agricultor Carlos José Pereira da Silva, 31 anos, que mora no município de Sobrado. Ele disse que descobriu a doença em 1998, quando trabalhava numa usina de cana-de-açúcar. Ele lembrou que começaram aparecer bolhas pelo seu corpo e quando procurou um médico descobriu que estava com hanseníase. “Quando eu estava na rua e as pessoas passavam por mim, viam aquilo no meu corpo e se afastavam imediatamente”, contou.

O agricultor ainda está em tratamento, mas não pode mais trabalhar na roça por causa da doença, pois só consegue permanecer no sol até às 9h e, a partir desse horário, o seu corpo fica todo dormente. Sem poder trabalhar, José Carlos conta que sustenta os dois filhos com ajuda de amigos, parentes e de uma entidade católica. “Logo no início, eu recebia ajuda do INSS, mas depois o benefício foi cortado”, lembrou.

Transmissão – Geísa Campos, chefe do Núcleo de Doenças Endêmicas da SES, explicou que a hanseníase é causada pela bactéria Mycobacterium leprae. Somente os doentes com lesões em atividade podem contagiar, por meio de contato de pele ou por vias respiratórias. O primeiro sintoma da doença é o aparecimento de manchas brancas e avermelhadas na pele com perca de sensibilidade. Ela disse que a doença é clinicamente 100% curável e se for diagnosticada precocemente pode deixar pequenas sequelas.

O tempo de tratamento depende da gravidade em que a doença foi diagnosticada podendo variar, em média, de seis meses a dois anos.  O tratamento é feito à base de um coquetel de comprimidos chamado de poliquimioterapia da hanseníase. A Gerência de Respostas Rápidas da SES registrou, no ano passado, 769 casos de hanseníase na Paraíba.