João Pessoa
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Realidade literária brasileira é tema de debates no I Salão do Livro

sexta-feira, 26 de novembro de 2010 - 11:43 - Fotos: 
Revelações sobre carreira e vida pessoal marcaram o tom das entrevistas concedidas pelos escritores André Vianco, Arquidy Picardo e Afonso Romano. Eles foram as atrações do I Salão Internacional do Livro, nessa quinta-feira (25), quando participaram de um bate-papo conduzido pelos jornalistas Agda Aquino e Linaldo Guedes.  

Os encontros ocorreram no Teatro de Arena do Espaço Cultural. Começaram no período da tarde e se estenderam pela noite, atraindo a presença de quase 200 pessoas. A visita dos intelectuais fez parte da programação do Salão Internacional do Livro, realizado no Espaço Cultural até o próximo domingo (28).

Participando dos quadros ‘Fique Ligado’, ‘Poética da Palavra’ e ‘Café com Letras’, os escritores responderam perguntas do público e contaram detalhes sobre infância, família e criação das obras. Eles também comentaram a atual realidade literária brasileira e abordaram as dificuldades encontradas na hora de escrever e publicar um livro.

Apesar das opiniões diferentes em vários assuntos, os três foram unânimes em afirmar que o Brasil precisa de mais incentivo à leitura. Os autores ainda lançaram livros e concederam sessão de autógrafos.

André Vianco

O primeiro a ser recepcionado pelos leitores foi André Vianco. Autor de obras infantis, ele começou a carreira de literária no ano de 2000, após vencer as barreiras iniciais e lançar o primeiro livro: ‘Sete’.  “Quando escrevi esse livro, procurei várias editoras, mas nenhuma quis publicá-lo. Elas achavam que a literatura infantil não dava retorno financeiro. Eu tinha acabado de ser demitido. Usei o dinheiro do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) e paguei as despesas para imprimir o livro”, lembrou.
 
André passou a vender o livro de porta em porta e levou quase um ano para comercializar mil unidades. Só depois disso é que a editora resolveu lançar a obra. A partir dali, o autor não parou mais de escrever. Já são 12 trabalhos publicados. Usando narrativas que envolvem vampiros, lobisomens, mistério e suspense, ele conquista a atenção também dos adultos. A inspiração para criar histórias e personagens vem de várias fontes. “O escritor é como uma antena parabólica. Vai juntando uma coisa daqui, outra dali, e, quando se menos espera, ele explode. Aí, surge a obra”, declarou.

Arquidy Picardo

O segundo escritor a se apresentar no Teatro de Arena foi Arquidy Picardo. Autor de seis obras, ele pretende lançar nos próximos meses mais dois trabalhos. Filho de cineasta e artista plástico, ele cresceu vendo a literatura transitar dentro de casa.  Aos 12 anos, começou a fazer os primeiros rascunhos e não parou mais. Já são 36 anos dedicados à arte de escrever.

Adotando narrativas com ficções futuristas, que mostram vampiros com sete mil anos de idade vivendo num planeta destruído e sem vegetação, Arquidy busca despertar o imaginário do leitor. Já em outras obras, ele usa personagens infantis para ajudar adultos a resolverem seus próprios problemas.

É o caso do livro ‘Lições de Voo’, em que um pássaro supera o medo de voar ao se vê obrigado a salvar a mãe. “Sou um escritor que gosta da ficção e do realismo fantástico. As obras me ajudam a superar meus próprios medos, mas minha preocupação maior é de fazer livros compreensíveis, porque livros incompreensíveis são livros ruins”, declarou.

Afonso Romano

Foi com chave de ouro que Affonso Romano de Sant’anna fechou a noite de cultura no Salão Internacional do Livro.  Ele veio a João Pessoa lançar a reedição da obra ‘Que país é esse’, publicado 30 anos atrás. Em forma de contos, ele aborda a questão da violência, da ausência de políticas públicas e da sensação de insegurança que paira nas grandes cidades. Apesar de ter sido escrito há mais de três décadas, Affonso afirma que a narrativa é atual e se assemelha muito com os conflitos vivenciados por brasileiros.

Dentro dessa obra, há um conto que denuncia a morte da baleia. Segundo Affonso, havia na Paraíba o costume de matar esse animal e transformar o fato em um grande evento. Após o assunto ser denunciado nas estrofes, a morte da baleia virou música e se propagou. Algum tempo depois, esse ritual foi proibido.  “Essa baleia não é apenas uma baleia. É a mulher, o operário, a criança e todas as pessoas que são seviciadas todos os dias por um sistema explorador. Porque há vários modos de se matar um homem. Por meio da espada, do veneno, mas se mata também pela palavra, que tem uma característica letal”, ressaltou.

Políticas públicas

Considerado um escritor crônico, Affonso Romano também abordou a necessidade de políticas para incentivar o hábito da leitura no país. Apesar de considerar que o governo Lula realizou grandes avanços na área da cultura, ele salientou que o Brasil não aproveita bem o potencial de leitores que possui é abre espaço para a entrada de empresas estrangeiras nesse segmento. “Em 1970, éramos 70 milhões de habitantes. Em 2010, somos 200 milhões. Hoje, vemos as livrarias sendo vendidas a empresas estrangeiras e as prateleiras serem tomadas por livros que não foram escritos no Brasil”, contou.

“Produzimos 40 mil títulos por ano. As livrarias não têm espaço para tantas obras. Por isso, elas expõem apenas os livros de editoras de prestígio, que pagam às livrarias para ocupar os melhores lugares da estante”, completou.