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13 de janeiro de 2010

Professora analisa contribuição de Oswald de Andrade para literatura



Neste mês, mais especificamente no último dia 11, Oswald de Andrade completaria 120 anos. Extrovertido e provocador – é assim que alguns críticos literários o definem. Contudo, para além das análises de comportamento, a professora de Linguística e Literatura da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Vanilda Lira Vidal de Lacerda, vinculada ao Centro de Humanidades, Campus III, localizado em Guarabira, considera Andrade um dos gênios fundamentais para a renovação da cultura brasileira do século XX, fortalecendo, igualmente, a identidade do País.

Ela destacou que Oswald alargou a visão cultural do Brasil. “Representou, também, a ironia às instituições e ao comodismo pequeno burguês. Uma das características da obra dele é a ruptura com a tradição acadêmica oficializada, em contraposição ao Realismo e ao Parnasianismo”, disse.

De acordo com a docente, os artistas antropófagos, a exemplo de Oswald, propunham o devorar da cultura estrangeira, aproveitando somente as inovações artísticas, sem perder nossas peculiaridades culturais.

Para Vanilda, nenhum outro escritor do Modernismo ficou mais conhecido pelo espírito irreverente e combativo do que Oswald de Andrade. “Ele privilegiava a valorização do passado histórico-cultural do País de maneira crítica, mas sem o ufanismo. Sua visão contrapunha a natureza às moderno-primitivas inovações da sociedade”, revelou.

Para o aluno da UEPB do terceiro ano de Comunicação Social, Marcus Fábio da Costa, a poesia de Oswald é precursora de um movimento que vai marcar a cultura brasileira na década de 60: o Concretismo. Suas idéias, recuperadas também nesse período, reaparecem com roupagem nova no Tropicalismo.

Ele destacou que seu livro favorito do escritor é ‘Memórias sentimentais de João Miramar’. “Chama a atenção pela linguagem e pela montagem inédita. O romance apresenta uma técnica de composição revolucionária, se comparado aos romances tradicionais”, apontou. São 163 episódios, numerados e intitulados, que constituem capítulos-relâmpagos (tudo muito influenciado pela linguagem do cinema) ou, mais precisamente, como se os fragmentos estivessem dispostos num álbum, tal qual fotos que mantêm relação entre si. Cada episódio é narrado com ironia e humor.

Obras indicadas – Poesias: ‘Pau-Brasil’ (1925); ‘Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade’ (1927); ‘Cântico dos cânticos para flauta e violão’ (1945); ‘O escaravelho de ouro’ (1945).

Romances: ‘Os condenados’ (trilogia) (1922-34); ‘Memórias sentimentais de João Miramar’ (l924); ‘Serafim Ponte Grande’ (1933); ‘Marco Zero – a revolução melancólica’ (1943). Teatro: ‘O homem e o cavalo’ (1934); ‘A mona’ (1937);’ O rei da vela’ (1937). Além disso, publicou os Manifestos: Poesia Pau-Brasil (1924); Antropófago (1928) e escreveu ainda artigos e ensaios.

Biografia – José Oswald de Souza Andrade nasceu em São Paulo, em 1890. Jornalista e advogado, fundou a revista ‘O Pirralho’, em 1911, bacharelando-se pela Faculdade de Direito de São Paulo em 1919. Mais tarde, trabalhou para o Diário Popular, Correio Paulistano, Correio da Manhã e O Estado de São Paulo.

Participou ativamente da Semana de Arte Moderna de 1922, sendo inclusive um dos organizadores. Amigo de Mário de Andrade formou com ele a dupla de maior expressão do movimento modernista. Posteriormente a 1922, desencadeou dois movimentos, o ‘Pau-Brasil’ (1924/25) e o da ‘Antropofagia’ (1928). O primeiro, utilizando elementos da vanguarda francesa, pregava a criação de uma poesia primitiva e nacionalista, fruto da união de uma cultura nativa com uma cultura intelectualizada. Sua proposta é a de unir a floresta e a escola.

O segundo movimento questionava a estrutura política, econômica e cultural do país, entendida como uma herança deixada pela colonizador. Em maio de 1928, colocou em circulação o primeiro número da Revista de Antropofagia, primeira dentição.

Entre 1922 e 1934, publicou a Trilogia do exílio formada pelos romances ‘Os condenados’ (1922), ‘Estrela de absinto’ (1927) e ‘A escada vermelha’ (1934). Paralelamente à sua intensa atividade, Oswald envolveu-se com o clima de radicalização política dominante no país após a Revolução de 1930, tendo ingressado no início da década no Partido Comunista Brasileiro, então Partido Comunista do Brasil (PCB). Nesse período, escreveu três peças de teatro: ‘O homem e o cavalo’ (1934), ‘A morta’ e ‘O rei da vela’ (1937).

Adversário do integralismo, do nazi-facismo e da ditadura do Estado Novo (1937-1945), em 1940, através de uma carta-desafio, lançou-se candidato à Academia Brasileira de Letras (ABL), não sendo, contudo, eleito. Em 1945, participou do I Congresso Brasileiro de Escritores, rompendo com o PCB. Naquele mesmo ano obteve a livre-docência de literatura brasileira na cadeira de literatura brasileira na USP com a tese A crise da filosofia messiânica.

Foi integrante do Partido Comunista, entre 1931 e 1945, e sofreu perseguições políticas pela sua militância. Em 1945, tornou-se livre-docente em Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo (USP), com a tese A Arcádia e a Inconfidência. Publicou, em 1954, o livro de memórias Um Homem Sem Profissão. Destacam-se, em sua obra poética, os livros Pau-Brasil (1925) e Primeiro Caderno do Aluno de Poesia Oswald de Andrade (1927). Oswald de Andrade é um dos nomes fundamentais do Modernismo.

A respeito de sua poesia, Haroldo de Campos afirmou: “Oswald recorreu a uma sensibilidade primitiva (como fizeram os cubistas, inspirando-se nas geometrias elementares da arte negra) e a uma poética da concretude (‘Somos concretistas’, lê-se no ‘Manifesto Antropófago’) para comensurar a literatura brasileira às novas necessidades de comunicação engendradas pela civilização técnica”. Faleceu em São Paulo em 1954.

Nacionalismo crítico – Em 1924, em Paris, Oswald lança o ‘Manifesto da Poesia Pau-Brasil’. Ele desejava criar a primeira poesia de exportação brasileira, logo a chamada ‘poesia pau-brasil’. O movimento visava à criação de uma língua brasileira por meio da ‘contribuição milionária de todos os erros’. O grupo Verde-Amarelismo surgiria logo em seguida como reação ao tipo de nacionalismo defendido por Oswald. Alegavam que o movimento do antropófago era ‘afrancesado’.

Revidando o primitivismo da Anta, ex-Verde-Amarelo, Oswald, Tarsila do Amaral e Raul Bopp criam a ‘Antropofagia’, movimento inspirado no quadro ‘Abaporu’ (‘antropófago’, em tupi), que Tarsila deu para Oswald como presente de aniversário.