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Na Paraíba, Ipea deve aprofundar dados estatísticos sobre Nordeste

quinta-feira, 15 de abril de 2010 - 17:08 - Fotos: 
O presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Márcio Pochmann, em visita ao secretário de Planejamento e Gestão (Seplag) do Estado, Osman Cartaxo, lembrou a importância da instalação do órgão na Paraíba para aprofundar a apuração da realidade do Nordeste.

Ele disse também que o órgão vai trabalhar em conjunto com o Instituto de Desenvolvimento Estadual e Municipal (Ideme-PB), não se fixando apenas na coleta de dados sobre a Paraíba ou João Pessoa, a Capital, mas utilizando a posição estratégica do Estado para expandir seus estudos do litoral ao interior da região nordestina.

Pochmann explicou que a escolha da Paraíba para a instalação do órgão, além de atender a uma necessidade de inseri-lo na região a ser estudada, também levou em conta critérios da distribuição de órgãos federais no Nordeste.

“A sede da Sudene está em Recife, em Fortaleza tem o BNB. Salvador já tem o pólo petroquímico. Por isso (também) a opção recaiu sobre a Paraíba”, conta o presidente. No momento, o órgão tem cerca de 200 pesquisadores em todo o País, envolvidos exclusivamente com projetos ligados a órgãos estaduais – caso em que também está inserida a Paraíba. A linha principal desses projetos está ligada à mobilidade e meio ambiente.
Confira abaixo a entrevista concedida pelo presidente do Ipea.

O Ipea tem uma política de pensar a longo prazo e também de planejamento. A chegada do Ipea vai provocar os poderes públicos a pensar a Paraíba e o Nordeste a longo prazo?

Nós tivemos duas décadas muito difíceis, a transição do século XX para o XXI nos fez menor. Houve regressão econômica e social e perdemos a visão de sonhar com o Brasil grande. Caímos numa preocupação de curto ‘prazismo’. Isso, de certa maneira, tirou a ousadia do brasileiro.
Temos, é claro, a auto-estima e também uma perda de oxigênio em nossas instituições que ficaram um pouco enferrujadas. Não há dúvida que o debate de idéias, a pluralidade de idéias, leva a uma tomada de decisão. Alguém já disse que o primeiro passo para mudar a realidade é conhecê-la. Na medida em que a gente conhece a realidade e há informações, há uma pressão por parte da sociedade em alterar essa realidade. Então, acreditamos sim que a oportunidade de ter mais informações e mais análises levará certamente as elites a terem uma posição mais contemporânea da realidade brasileira.

O Ipea pensa para além da política de Estado ou de um governo. A tendência dos Estados nordestinos em pensar políticas de curto prazo deve ser combatida?
Se nós olharmos o mundo, os países que têm tido mais sucesso no sentido de combinar o econômico com o social são países asiáticos. Eles têm decisões de longo prazo, planejamento de longo prazo.

A democracia nos permitiu ter oscilações de poder, trocas. Tão importante do ponto de vista de não sermos um país autoritário, mas ao mesmo tempo sabemos que essas trocas não podem significar a interrupção de projetos de maior duração. Então, nós trabalhamos no Ipea para que ela seja uma instituição de formação e análise que ofereça informação e análise para que o Executivo possa tomar suas decisões – também o legislativo e agora mais recentemente o próprio judiciário – e isso permite uma avaliação freqüente de quais são os limites desses órgãos. Por isso, digamos que essa percepção dos limites serve de convencimento para uma retomada de política de longo prazo, uma retomada do próprio planejamento como um instrumento de governança, do curto e médio prazo e, sobretudo um mecanismo que auxilie a avaliar e monitorar o planejamento de maior alcance. Acreditamos que estamos nos primeiros passos, mas que ganharemos nova dimensão a medida que os governos e a sociedade civil tenham clareza do papel do planejamento do ponto de vista de tomar decisão.

Como se insere a política do Ipea ao se instalar na Paraíba?
Nós acreditamos que o Ipea pode ser a instituição que ajude a articular os diferentes conhecimentos, seja do ponto de vista da disciplinariedade, nas diferentes áreas do conhecimento, seja do ponto de vista regional, local. Então, nossa presença do ponto de vista regional é justamente para fazer essa conexão entre os diferentes saberes que existem entre os diferentes estados da Paraíba e, sobretudo, no nordeste. Fazer com que esses conhecimentos também tenham voz e vez na construção das políticas públicas federais. Mais acreditamos que tenhamos uma contribuição adicional que é a de servir de apoio as instituições de pesquisa que já existem aqui, que a gente possa oferecer os nossos bancos de dados, do ponto de vista de avaliação de política pública, de planejamento, de formação de quadros, para o que for necessário na região. É uma via de sentido duplo, nós também queremos nos apoiar aqui para entender melhor a dinâmica regional, populacional, demográfica, econômica.

O Ipea pretende também interiorizar as pesquisas?
Não há dúvida, porque o democrático hoje não são decisões tomadas do ponto de vista das capitais. Não conheço muito a região e não posso falar, mas do ponto de vista brasileiro eu posso dizer que o Brasil está se movendo muito mais com a força das cidades pequenas e médias, não são mais as grandes cidades que comandam a expansão econômica. É preciso dizer quem são essas cidades, como é que elas se movem. Quer dizer, há um outro Brasil, em efervescência, que poucos conhecem e não tem como se conhecer a partir de Brasília. Precisamos estar conectados com quem está na região. Porque na região se conhece melhor a sua própria realidade.

Por que o Ipea não se instalou em outros Estados nordestinos como Ceará, Bahia e Pernambuco?
O Nordeste de fato tem um conjunto de estados e vários deles já possuem uma presença federal significativa. A Sudene em Recife, em Fortaleza tem a sede do BNB. Em Salvador, o pólo petroquímico. Nós estávamos na dúvida em que Estado poderíamos iniciar esse evento que não fosse na verdade um adicional, que não fosse o que já existia anteriormente, por isso a opção recaiu sobre a Paraíba. Agora essa descentralização não significa que nós não vamos ficar sediados o resto do tempo. Nossa idéia é que seja uma representação que possa se mover pelos outros Estados em função dos projetos que são construídos. Não temos a preocupação de ser uma sede fixa. Nós achamos que o começo por aqui seria uma boa demonstração de que um Brasil novo está sendo descoberto.

O senhor poderia falar sobre os projetos em andamento no Instituto?
Nós temos um plano de trabalho com um volume muito grande de pesquisa e projetos em andamento. Existem seis projetos que se vinculam a rede do Ipea com as associações de pesquisas estaduais, a Rede Anipes. Um dos temas principais desses projetos trata de cidades, urbanização, mobilidade, ambiental. São na verdade temas construídos com essas instituições e que o Ipea vem apoiando através de bolsas que permitem, inclusive, ter a presença de pesquisados e ajuda na coordenação.

Normalmente, a imprensa tem dificuldade de colher dados estatísticos. Com o Ipea instalado na Paraíba, isso vai mudar? Poderíamos construir já o PIB trimestral do Nordeste (o último foi de 2007).

Não é o papel do Ipea substituir instituições que já existem para fazer esse trabalho, mas podemos ajudar a obter esse tipo de informação. Nos estudos que fazemos com dimensão nacional, muitas vezes o Estado ou a região não aparece. Então, com essa representação nós temos condições de descentralizar e atender um pouco a expectativa regional. É essa nossa tentativa, que os nossos estudos estejam mais próximos da sociedade e das pessoas que tomam decisão.

Paulo Dantas, da Assessoria de Imprensa da Seplag