João Pessoa
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Jovens socioeducandos do Lar do Garoto participam de oficina de tear e produção é comercializada

quinta-feira, 11 de maio de 2017 - 17:19 - Fotos:  Divulgação

Em meio a linhas coloridas, fios e máquinas artesanais, internos do Lar do Garoto Padre Otavio Santos, no município de Lagoa Seca, vão tecendo e criando peças artesanais que foram comercializadas no último Salão de Artesanato da Paraiba, realizado em João Pessoa. A produção de jogos americanos e tapetes coloridos tem a orientação e criação do artesão-oficineiro Lucivaldo Marcos Gonçalves, que ensina os jovens a aprenderem uma atividade que pode mudar a vida deles futuramente.

A atividade faz parte do programa de ressocialização desenvolvido pela Fundação Desenvolvimento da Criança e do Adolescente “Alice Almeida” (Fundac), cujo presidente Noaldo Meireles teve a iniciativa de expor toda a produção dos jogos americanos e tapetes para comercialização pela primeira vez, no 25º Salão de Artesanato da Paraíba – Raiz Cultural de Um Povo -, realizado de 18 a 29 de janeiro, na Praça do Povo do Espaço Cultural.

Enquanto vão tecendo as peças por meio do manejo com os fios e linhas, ao mesmo tempo, vão se profissionalizando e “costurando” suas vidas na perspectiva de ter um ofício e passar a multiplicar, como uma profissão, essa arte milenar. A produção tem envolvido tantos jovens que, segundo o oficineiro Lucivaldo, a partir deste mês, vão passar a produzir lençóis e mantas.

Hoje no Lar do Garoto, 32 jovens aprendizes participam da Oficina de Tear cujas aulas ocorrem uma vez por semana. A Oficina de Tear foi retomada em 2016 e, segundo Noaldo Meireles, as atividades, além de ocupar os internos e dar-lhes uma profissão, “ajuda a manter uma cultura milenar muito difundida no Estado da Paraíba”. Ele adiantou que a ideia é ampliar a oficina e passar a produzir também redes, produto com grande valor comercial.

“Esta segunda remessa, que desejamos também expor e se possível vender, tem o objetivo de comprar mais máquinas de tear e ampliar a oficina”, disse Lucivaldo. Segundo o oficineiro, a grande maioria dos internos gosta muito de participar das aulas e se interessa bastante. “Eles se sentem muito à vontade, conversam entre si, se movimentam para produzir as peças e ocupam a mente”, comentou ressaltando que o mais importante é a profissionalização deles.

O oficineiro Lucivaldo aprendeu a arte do tear com seus pais. Toda a família dele trabalhou em tear na produção de redes, lençóis, mantas e tapetes. “Daqui fiz um curso para aprimorar mais os meus conhecimentos e atualmente estou trabalhando no Lar do Garoto”, destacou o oficineiro. Ele disse que está organizando uma apostila para também passar para os internos um pouco dessa arte milenar. “Também pretendo passar um filme sobre o assunto. Assim eles vão passar a conhecer a história”, declarou.

O TEAR – A tecelagem é milenar. Acompanha o ser humano desde os primórdios da civilização. Está identificada com as próprias necessidades do homem, de agasalho, de proteção e de expressão. São fibras de algodão, de lã, de linho, fiadas e tingidas por processos manuais, que nos teares, através das mãos do artista, se unem em cores e formas.

Com o passar dos tempos a tecelagem utilitária evoluiu na tecnologia, e a de expressão procurou os caminhos naturais. Aí as tramas e as urdiduras se entrelaçam para dar forma ao pensamento e à intuição. Saber tecer e tingir fios de fibras naturais são conhecimentos que se mantém a séculos e acompanham a humanidade desde sua origem.

Por necessidade, a tecelagem firmou-se no Brasil Colônia, onde produzir tecidos para escravos e gente simples justificava o empreendimento. Com as tramas nascia o pensamento abstrato e é por isto que, até hoje, tecer significa pensar. Suas técnicas consagradas pelo tempo não são restritivas, mas sim, abrem infinitas possibilidades de resultados, desafiando a criação.

A atividade de tecer era inteiramente rudimentar, começando pelo plantio do algodão cru e ganga, que, depois de colhido, era descaroçado num descaroçador manual, cardado e fiado. O tingimento dos fios se dava pela utilização de cascas e raízes, dentre elas o Anil (azul), a Sandra d’água (vermelho) e a Caparosa com pau-brasil (preto), entre outras.

Na atualidade, a tecelagem enriquece a produção cultural do Brasil, desenvolvendo linguagem própria e atuando com grande expressividade; a tecelagem transcende a mera artesania e se insere conceitualmente na manifestação da arte popular contemporânea. Ela ainda mantém seu caráter interativo com as linguagens artísticas, sem abandonar a rica relação entre o saber fazer e o saber pensar.

Em dias atuais, continuam com as etapas na produção de tecidos, que seguem as etapas da obtenção, fiação, tingimento, preparação do urdume e tramagem e, finalmente, tecelagem.