João Pessoa
Feed de Notícias

Intérpretes ajudam a compreensão dos participantes do Fórum de Governança da Internet

sexta-feira, 13 de novembro de 2015 - 18:04 - Fotos:  Alberi Pontes

Nos dias atuais, falar um idioma estrangeiro não é somente importante, como muitas vezes, essencial. Ainda que vivamos numa “Torre de Babel”, é impossível compreender as milhares de línguas e dialetos pelo mundo. Para isso, existem os tradutores e intérpretes, essenciais para que as pessoas dos mais de 170 países representados no Fórum de Governança da Internet (IGF) 2015 da Organização das Nações Unidas se compreendam.

As Nações Unidas utilizam seis línguas oficiais: árabe, chinês, espanhol, francês, inglês e russo. Acrescente-se a essas, o nosso português, uma vez que o IGF está acontecendo no Brasil. Patrizia Coppola, intérprete de conferência, formada há vinte anos, é a coordenadora da equipe de intérpretes trabalhando no IGF 2015. Ela trabalha há cerca de 10 anos para o Centro de Informação das Nações Unidas no Brasil (Unic BR) e Comitê Gestor da Internet do Brasil (CGI.br).

A equipe de intérpretes trabalhando nesta décima edição do IGF é de 24 profissionais, todos graduados e membros das associações, como a Associação Profissionais dos Intérpretes de Conferência (Apic), no Brasil, ou Associação Internacional dos Intérpretes de Conferência (AIIC), cuja sede é em Genebra. A edição ainda contou com a participação de uma intérprete de japonês, porém a profissional ficou apenas dois dias e somente acompanhando um dos ministros de seu país.

“A tradução simultânea é uma parte muito importante de um evento. É um trabalho muito interessante, porque seja lá qual for o idioma que está sendo falado, ele está simultaneamente sendo traduzido para todos esses idiomas, não apenas para os participantes que estão ali na plenária, mas através do acesso remoto. O número de pessoas que acompanham a conferência via streaming é muito grande e é uma tendência. Cada uma das salas tem um hub de uma central que é responsável pela transmissão. A tradução que o internauta remoto ouve é a mesma das cabines presenciais, por meio de um sinal conectados a estas”, disse Coppola.

A coordenadora explicou que a tradução simultânea exige uma técnica especial e nesta edição ela teve o cuidado de selecionar para as diferentes cabines as pessoas que tem o idioma principal como sendo o “idioma A”, que na classificação linguística da profissão significa ser um nativo da língua.

Árabe e russo: duas línguas “exóticas” para os brasileiros – Samir Hattabi é um dos intérpretes para o árabe desta edição do IGF. Ele nasceu na Argélia e tem cidadania argelina e brasileira. Arquiteto de formação, ainda trabalhou nesta área no Brasil por dois anos, mas largou a profissão para assumir o trabalho de intérprete. Hattabi já viveu na França mas mora no Brasil desde 2004. Ele afirmou que ser casado com uma brasileira ajudou bastante no aprendizado do português, que aprendeu primeiramente de maneira informal, conversando com as pessoas e só depois partiu para a gramática. Começou a fazer tradução em 2008, primeiramente com a língua escrita e depois, como intérprete de conferência. Seu domicílio profissional é em Brasília, onde é o tradutor oficial de árabe e francês do Vice-presidente da República, Michel Temer, mas tem atividades em todo o Brasil, no setor público e privado.

Árabe – O árabe é uma língua semita central, parente próximo do hebraico e das línguas neo-aramaicas. É falado por mais de 280 milhões de pessoas como língua materna, a maior parte deles no Oriente Médio e Norte da África e é o idioma oficial de 22 países. A língua tem diversas variantes, muitas das quais são mutuamente inteligíveis. O árabe padrão moderno é a versão amplamente ensinada em escolas e universidades e utilizada em ambientes de trabalho, órgãos governamentais e na mídia. “Há o registro formal e o popular do idioma. O registro popular varia em cada país. Há dois grandes blocos no mundo árabe: da África do Norte e o dos países do Golfo. Mas existe uma língua compartilhada por todos, que se chama ‘fuṣḥā’, o árabe formal”, explicou Samir Hattabi.

O intérprete afirma que expressões estrangeiras e também traduções são utilizadas na língua árabe em termos de tecnologia e internet. “A tecnologia é bastante desenvolvida no mundo árabe. Utilizamos um teclado com nosso alfabeto, que é muito difícil encontrar no Brasil. Mas em termos técnicos, a informática é muito desenvolvida”, disse.

Outra diferença do português é que o árabe é escrito da direita para a esquerda, mas Samir comenta que todos os idiomas têm suas particularidades. “O estrangeiro percebe como algo exótico ou diferente, mas para nós, essas características são naturais. Eu entendo porque senti a diferença quando cheguei ao Brasil, pois achava o som do português lindo”. Porém, ele reconhece: “Há uma dificuldade inerente ao idioma árabe. Entre línguas latinas, a semelhança ajuda. Como não há semelhança entre inglês e árabe, por exemplo, devemos prestar mais atenção no sentido da expressão e não traduzir palavra por palavra”, explicou o intérprete, que elogiou o evento, em especial a coordenação da equipe de interpretação.

Russo – O russo é uma língua eslava falada como língua materna na Rússia, Bielorrússia, Ucrânia, Cazaquistão e Quirguistão, e utilizada amplamente na Letônia, Estônia e nos diversos outros países que formavam as repúblicas constituintes da extinta União Soviética. Seu alfabeto também se distingue do ocidental, chamado alfabeto cirílico. O intérprete para o russo do IGF é George Yurievitch, nascido em Moscou, que mora desde os 12 anos no Rio de Janeiro, tendo também cidadania brasileira.

Yurievitch estudou Letras, é tradutor há mais de dez anos e foi tradutor da Embaixada Brasileira no Cazaquistão durante dois anos. Em termos de tecnologia, ele afirma no russo também são igualmente utilizados estrangeirismos e traduções. “Em termos de tradução, sempre encontramos uma maneira de traduzir para o russo expressões típicas. Às vezes, encontramos termos que não existem na língua. Isso é comum em termos de política e internet, como o que ouvimos muito por aqui, o “zero ratings”. Nesses casos, temos que fazer uma explicação do termo, que acaba tomando muitas mais palavras do que a original”, explicou.

O intérprete russo disse que nunca passou por situações políticas embaraçosas. Mas já trabalhou em situações menos formais, como jantar entre políticos, fazendo tradução para o ex-presidente russo, Dmitri Medvedev. “Já participei de uma reunião dos Brics. Diria que foi divertido, mas nunca nenhuma situação especial”, comenta.

Filme “A Intérprete” – “The Interpreter”, em inglês, e “L’interprète”, em francês é um filme britânico, estadunidense e francês de 2005, do gênero suspense, dirigido por Sydney Pollack. O filme conta a história de Silvia Broome, uma intérprete da ONU que ouve uma ameaça a um chefe de estado africano, dita em um dialeto raro. Ela passa a receber proteção policial, mas o encarregado de protegê-la, ao vasculhar o passado da moça, começa a suspeitar que ela esteja envolvida em uma conspiração. Tem como atores principais Nicole Kidman e Sean Penn.

“Eu acho que o filme representou bem nosso trabalho e mostrou as saias justas em que um intérprete pode se encontrar muitas vezes, especialmente em questões políticas. Na nossa profissão, eu gosto de dizer que não somos tradutores, somos intérpretes, porque temos realmente que dar vida e alma àquele discurso, sendo fiel, é claro, ao seu orador principal, mas colocando emoção e sentimento, às vezes tendo que atenuar algumas situações embaraçosas, como acontece no filme”, finalizou Patrizia Coppola.