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Comissão Estadual da Verdade ouve depoimentos sobre Ligas Camponesas

terça-feira, 16 de julho de 2013 - 08:28 - Fotos:  Francisco França/Secom-PB

A Comissão Estadual da Verdade e da Preservação da Memória da Paraíba realizou, nessa segunda-feira (15), mais uma audiência pública, desta vez no município de Sapé para coletar depoimentos de trabalhadores rurais, familiares e lideranças que integraram as Ligas Camponesas. Na década de 1960, o movimento organizado por camponeses, que reivindicava reforma agrária, foi alvo da repressão da ditadura militar.

A audiência promovida no ginásio da Escola Estadual de Ensino Médio e Fundamental Monsenhor Odilon Alves Pedrosa (EMOAP), no Centro da cidade, foi assistida durante todo o dia por estudantes, familiares e pesquisadores. Na ocasião, todos puderam ouvir depoimentos como o da presidente da Liga Camponesa de Sapé e viúva do líder assassinado João Pedro Teixeira. “Depois de tanto tempo me sinto muito feliz por, de certa forma, fazer justiça a tudo o que aconteceu naquela época. O que os grandes proprietários de terras e donos de engenho fizeram com meu marido não pode ficar impune”, destacou a viúva.

Outro depoimento marcante foi o do presidente da Liga Camponesa de Santa Rita, Antônio Dantas. Ele lembrou o exílio de 60 dias em Cuba, sendo capturado novamente ao voltar para o Brasil. “Fui perseguido e esse tempo que passei fora foi o suficiente para que a polícia da época invadisse o cartório de Santa Rita, onde fundei a Liga, para levar e sumir com toda a documentação. Mesmo assim, avisei aos meus companheiros que se caso eu não voltasse deveriam continuar o trabalho. Me sinto feliz e orgulhoso do meu passado. Se eu fosse jovem hoje iria continuar fazendo revolução como os jovens de hoje passaram a fazer nas ruas”, comentou Dantas.

A advogada que defendeu os integrantes das Ligas Camponesas, Ophelia Amorim, também prestou depoimento sobre sua atuação como testemunha. “Mostrei como era o trabalho dos advogados da época na questão das terras durante a fundação das Ligas Camponesas. Iniciamos uma luta contra a monocultura da cana e a Consolidação das Leis do Trabalho, a CLT, para os camponeses que mantinham uma relação de emprego com os donos de terras e engenhos. Por isso, acabei sendo presa, respondi a três processos e deixei Campina Grande para morar em São Paulo, onde vivo até hoje. Geralmente as histórias são escritas pelos vencedores, mas espero que os vencidos, que somos nós, possam ajudar a escrever e resgatar a verdadeira história dos fatos”, observou.

Além desses depoimentos, prestaram esclarecimentos o presidente Federação das Ligas Camponesas da Paraíba, Francisco de Assis Lemos e Neide Araújo, filha do desaparecido Pedro Inácio de Araújo, em 1964. Na época, as Ligas Camponesas tinham a finalidade de auxiliar os trabalhadores rurais com despesas funerárias para evitar que fossem despejados em covas de indigentes; prestar assistência médica, jurídica e educacional aos camponeses, formar uma cooperativa de crédito capaz de livrar, aos poucos, o camponês do domínio latifundiário e, principalmente, promover a reforma agrária no Brasil.

A coordenadora da Subcomissão Especial de Acompanhamento da Comissão da Verdade na Câmara dos Deputados, a deputada federal por São Paulo, Luíza Erundina, participou da audiência e enfatizou que apesar dos trabalhos serem uma catalogação do passado, os crimes não podem ficar impunes.

Foram depoimentos de repressão política, assassinatos e torturas que devemos fazer o link com o momento atual, pois existem ainda grandes latifundiários acumulando riqueza e explorando os trabalhadores rurais. Por isso, ainda é preciso implantar a reforma agrária para que a luta desses companheiros seja concluída. Além disso, após a apuração dos fatos, a revelação da verdade e a identificação dos responsáveis é preciso que se faça justiça para que não fiquem impunes os crimes e as pessoas como se nada devessem ao país e aos direitos humanos”, defendeu a deputada.

O presidente da Comissão, professor Paulo Giovani Nunes, avaliou a realização de mais uma audiência como sendo positiva para os trabalhos desenvolvidos na Paraíba. “Todos os depoimentos prestados hoje, bem como a documentação que já coletamos, serão utilizados para compor nosso relatório final. Por isso, toda informação é bem vinda, até mesmo os livros e publicações da época das Ligas Camponesas. Os trabalhos estão avançando e contamos com a colaboração de vários grupos de trabalho compostos por estudantes, pesquisadores e outros que de maneira voluntária têm auxiliado nossas atividades”, destacou.

Para a coordenadora do grupo de trabalho Graves Violações de Direitos Humanos no Campo ou Contra indígenas e membro da Comissão Nacional da Verdade, Maria Rita Kehl, a audiência contribuiu para os trabalhos desenvolvidos nacionalmente. “Foi uma audiência importante e de muito valor simbólico. Já tínhamos muita informação sobre as vítimas, mas o que eu possuía particularmente da Paraíba estava no livro dos mortos e desaparecidos. Agora espero receber todo esse material como vamos fazer com outros estados brasileiros durante nossas visitas”, disse.

Memorial das Ligas Camponesas – Após a audiência pública em Sapé, a comitiva seguiu para o povoado de Barra de Antas (zona rural da cidade), para visitação da casa onde morou João Pedro Teixeira, líder das Ligas na Paraíba, local onde funciona o Memorial das Ligas Camponesas, restaurado pelo governador Ricardo Coutinho, em abril de 2012.

Aberto no Cinquentenário do assassinato do camponês, o espaço abriga um acervo de publicações dos jornais da época que retratam as tragédias que marcaram a família, bem como, o Hino dos Camponeses, projetos de mestrados, livros publicados sobre o assunto e fotografias de líderes camponeses como Nego Fuba, Bela, Margarida Maria Alves, Sandoval Avelino, Antônio Chaves e Pedro Inácio de Araújo.

Próximas audiências – Mais uma audiência pública foi marcada para o próximo dia 6 de agosto no auditório da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), onde serão ouvidas vítimas de torturas na cidade. Além dessa, outras audiências públicas estão programas sendo uma sobre estudantes paraibanos que foram presos no 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), no município de Ibiúna, em Minas Gerais, em outubro de 1968, e outra com parlamentares cassados e magistrados afastados durante o regime militar.

A Comissão Estadual - O grupo é constituído por sete participantes: Paulo Giovani Nunes (presidente); João Manoel de Carvalho; Irene Marinheiro; Lúcia Guerra de Fátima Ferreira; Iranice Gonçalves Muniz; Fábio Fernando Barbosa de Freitas e Waldir Porfírio. Nomeados pelo governador Ricardo Coutinho, os integrantes têm mandato de dois anos.

Site - Mais informações sobre os trabalhos da Comissão da Verdade podem ser obtidas através do site www.cev.pb.gov.br. No endereço, o internauta pode encontrar vídeos, áudios, fotografias, documentos digitalizados e links de documentos na área de direitos humanos e para contatos de pessoas que queiram colaborar com o trabalho da Comissão.