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Casa do Estudante completa 80 anos e integra história da política e educação da Paraíba

segunda-feira, 13 de março de 2017 - 17:08 - Fotos:  Sérgio Cavalcanti

A Casa do Estudante da Paraíba é um espaço que traz consigo a história não só da educação, mas de lideranças políticas paraibanas, tendo passado por lá diversas personalidades, como ex-governadores, poetas, políticos e artistas, incluindo o cantor, compositor e ex-secretário de Estado da Cultura, Chico César. Neste último domingo, dia 12 de março, a instituição completou 80 anos de fundação e prepara uma programação para o mês de aniversário que também se estenderá por todo o ano.

A Casa está situada à Rua da Areia, 567, no Centro de João Pessoa, está ligada à Gerência Executiva de Desenvolvimento Estudantil da Secretaria de Estado da Educação (SEE). Está sob a coordenação de Jeremias Jerônimo Leite e tem como atual gestor o gerente executivo de Desenvolvimento Estudantil da SEE, Tulhio Serrano.

Histórico – A Fundação Casa do Estudante da Paraíba (Funecap) foi criada e entregue à comunidade estudantil do interior paraibano no governo estadual de Argemiro de Figueiredo, em 1937, e destina-se, prioritariamente, a abrigar estudantes em cujos municípios não haja o Ensino Médio e Técnico-profissionalizante.

Em 2013, o governador Ricardo Coutinho editou o Decreto 34.426, em que alterou diversos artigos do seu estatuto, entre eles, o art.4º, possibilitando que as vagas remanescentes da seleção dos alunos do Ensino Médio pudessem ser preenchidas por alunos matriculados em instituições de Ensino Superior e por beneficiários de programas governamentais de assistência ao educando.
Ainda no art.4º do Decreto 34.426, fica estabelecido que a finalidade da Casa do Estudante seja de abrigar alunos do Ensino Médio oriundos do interior do Estado, sem residência em João Pessoa, oferecendo aos candidatos selecionados alimentação, moradia e assistência psicossocial para o pleno desenvolvimento humano do residente. Ainda prevê que os estudantes menores de 18 anos, enquanto residentes da Casa, sejam representados pelos dirigentes da então Fundação, na condição de guardiões, para todos os efeitos previstos em lei.

Em 2013, a Casa do Estudante da Paraíba passou por uma reforma, período em que ainda era denominada Fundação. Em janeiro de 2015, por intermédio de medida provisória e posteriormente da lei 10467/2015, a Funecap passa a ser denominada Diretoria Executiva de Desenvolvimento Estudantil, ficando ligada à Secretaria de Estado da Educação.
Estrutura e reforma – A Casa do Estudante possui uma área de 3.790,00 m², distribuída em 48 apartamentos com capacidade para acomodar 96 residentes, auditório, quadra poliesportiva, cozinha, refeitório, biblioteca, sala de informática, sala de tevê, banheiros e área administrativa. O espaço possui quatro blocos com 12 apartamentos, abrigando dois estudantes em cada um.

O espaço fornece abrigo, educação e alimentação aos residentes. Garante acesso gratuito à internet e biblioteca, quatro refeições diárias orientadas por nutricionista e lavanderia, além de integrar seus residentes em ações nas áreas de saúde e esporte. Além disso, há a preocupação do bem estar e bom convívio no espaço. Para isso, a coordenação promove uma vez por mês uma roda de conversa com todos os residentes.

Em 2013, o governador Ricardo Coutinho entregou o equipamento totalmente revitalizado com investimento de R$ 1,1 milhão na obra, que incluiu reforma completa do prédio, construção de um auditório com capacidade para 150 pessoas e uma nova quadra poliesportiva. A Casa ganhou 12 quartos – sendo dois com acessibilidade para pessoas com deficiência – e teve reformados refeitório, cozinha, sala de estudo, biblioteca, sala de informática, sala de tevê, banheiros, almoxarifado e secretaria, além de melhorias estruturais nas instalações elétrica, hidráulica e sanitária.


A administração anterior da Casa afirmou que no início do primeiro mandato do governador Ricardo Coutinho, em 2011, a Casa do Estudante encontrava-se em estado caótico: sem esgotamento sanitário, sem segurança e com má estrutura física. Além disso, permaneciam hospedados estudantes que haviam sido reprovados, em desobediência às regras. Em 2012, a então gestão começou uma série de ações e reformas. Implantou-se a regra, já existente, de não aceitação de alunos repetentes.
Com o tempo, a Casa foi recebendo menos estudantes, uma vez que muitas cidades do interior começaram a ter escolas de ensinos Fundamental e Médio. Antigamente, a Casa do Estudante era uma das raras possibilidades dos que vinham do interior para estudar na capital. Porém, ainda é uma das poucas alternativas para muitos estudantes vindos de fora da cidade sem família na capital ou sem condições de pagar aluguel e outras despesas em cidades maiores.

Sonhos e esforço – É o caso de Arllyn Melo, estudante de Relações Internacionais na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) e residente da Casa do Estudante desde fevereiro de 2014. Arllyn é natural de Marabá, estado do Pará, e veio para João Pessoa com a intenção de cursar a graduação. Antes de vir para a Casa, dividiu moradia com colegas na cidade por um ano e dois meses e tinha dificuldade de pagar as contas. Ficou sabendo da Casa do Estudante por acaso, ao passar nas proximidades, e então resolveu pesquisar sobre o local. “Por um acaso, eu estava passando na rua, vi a Casa do Estudante e fui pesquisar como fazia para entrar. Na época, eu tinha muita dificuldade de residir em João Pessoa, morava mais longe, dividia aluguel com mais quatro amigos, numa casa de dois quartos. Depois que vim para cá, consegui melhorar muito a qualidade dos meus estudos e da minha vida. Pretendo terminar os estudos este ano e ficar na Casa até lá”, relatou o estudante.

O paraense demonstra agradecimento e sente que deveria prestar uma retribuição ao estado. Ele gostaria de continuar morando em João Pessoa, mas isso irá depender de futuras ofertas de trabalho. “Eu acredito que exista uma devolução a ser feita para o estado, para a cidade. Eu gostaria muito de ficar, mas até então não tenho nenhuma proposta de trabalho. Para mim, o alojamento da Casa foi fundamental. Uma das maiores dificuldades que eu tinha era justamente com as contas, de aluguel, internet, etc, requisitos básicos de estudante. Estas coisas acabam fazendo uma diferença enorme para quem vem para estudar. A Casa tem uma importância histórica imensurável, patrimônio muito antigo da Paraíba, que já abrigou várias personalidades, gente importante. Então acaba fortalecendo ainda mais a responsabilidade de devolver isso depois”, afirmou Arllyn Melo.

Em janeiro de 2017, a Casa do Estudante publicou edital para preenchimento de 96 vagas. Atualmente, encontram-se na Casa 50 residentes, a maioria, estudantes do Ensino Médio. Porém, todas as vagas foram preenchidas e os estudantes remanescentes encontram-se no aguardo do início do semestre letivo das universidades federais e estadual, como Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Instituto Federal da Paraíba (IFPB) e UEPB, que no momento estão com o calendário diferenciado. Atualmente, dos 50 residentes, 21 são secundaristas e 29 são universitários.

Dois destes secundaristas são os primos Rafael Barbosa e Alisson Vinícius, recém-chegados na Casa e moradores desde o início de fevereiro deste ano. Eles vieram da cidade paraibana de Igaracy, distante cerca de 450 km da capital. Rafael conta que vem de uma família que há tempos vem se mudando para João Pessoa a fim de estudar. Seu pai também foi residente da Casa do Estudante e há tempos O próprio Rafael queria vir estudar na capital. Hoje, ele é aluno do primeiro ano do Ensino Médio no Lyceu Paraibano e pretende cursar Engenharia Mecânica.

“Eu vim porque o ensino aqui é mais avançado e é melhor para a gente estudar. Se não fosse a Casa, estaria em Igaracy, com certeza”, disse Rafael. Seu primo e atual colega de quarto, Alisson, está no segundo ano do Ensino Médio e quer ser veterinário. Também estuda no Lyceu e se inspirou em outro tio, que também veio para a capital estudar.

Instituição formadora – Ao longo de sua história, a Casa do Estudante formou um leque de personalidades políticas e intelectuais, pessoas que se destacaram e ainda se destacam, entre essas, os ex-governadores Wilson Braga e Dorgival Terceiro Neto; o ex-ministro Mailson da Nóbrega; o ex-senador François Leite Chaves; o falecido poeta Jansen Filho; o jornalista e escritor Gonzaga Rodrigues; e o cantor, compositor e ex-secretário de Estado da Cultura, Chico César. O próprio Ricardo Coutinho, atual governador da Paraíba, costumava frequentar a Casa, uma vez que por um bom tempo esta foi ponto de encontro para discussões políticas.
Há quem afirme que a Casa do Estudante é fundamental para entender a liderança paraibana do século XX, pois no local há muita história para ser contada. O posto de presidência da instituição já foi exercido por alunos residentes. E na época de estudantes e residentes, Wilson Braga e Dorgival Terceiro Neto disputaram tal cargo. À época, quem saiu vitorioso foi Wilson Braga, porém, ambos se tornaram governadores da Paraíba.

A importância da Casa é tamanha que, para além das personalidades, hoje gera pesquisas acadêmicas. Francisco Chaves Bezerra é historiador e, atualmente, aluno de Doutorado em Educação na UFPB. Possui graduação e mestrado em História pela mesma universidade. Ele recebeu o aval da Casa do Estudante para realizar os estudos e sua pesquisa consiste, entre outros, numa análise histórico-documental de estatutos e regimentos internos da instituição.

Comemoração – A programação de aniversário de fundação da Casa do Estudante deverá acontecer não somente no mês de março, mas durante todo o ano. Segundo a coordenação, a programação deverá contar com um ciclo de palestras para os residentes, além de troca experiências com ex-alunos e também a entrega do Prêmio Amigo da Casa do Estudante a antigos residentes e gestores que se destacaram na sua passagem pela Casa. A homenagem foi criada há cinco anos, na celebração de 75 anos da Casa, com a entrega simbólica de um prêmio aos que de alguma maneira contribuíram com a instituição.

Segundo o gestor Tulhio Serrano, há previsão de construir um memorial nas dependências do espaço, trazendo o histórico da Casa, homenagens, personalidades, representações sociais e culturais.